Entre o tempo e o orgulho: a trajetória de Fernando Seffner e o envelhecimento LGBTQIAPN+
- Liliane Moura

- 21 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 3 de nov. de 2025
“Entrei nos estudos de gênero e sexualidade pelas mãos da doença.” É assim que o professor Fernando Seffner, de 69 anos, descreve o início de uma trajetória que mistura vida, pesquisa e militância. Docente e orientador do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ele é uma das principais referências brasileiras em temas como educação, masculinidades e teorias queer, além de ser testemunha das transformações que marcaram as últimas décadas da comunidade LGBTQIAPN+ no Brasil.
História de vida e autodescoberta
Seffner se formou em História e construiu uma carreira sólida na academia. Mas sua verdadeira descoberta foi a si mesmo. Ele cresceu em um contexto de silêncio e repressão, quando ser gay ainda era motivo de medo e invisibilidade. “A homossexualidade era algo que se vivia nas sombras, sem nome, sem lugar, sem direitos”, recorda.
Foi nos anos 1980, em meio à epidemia de HIV/AIDS, que o professor decidiu transformar a dor em reflexão. “Perdi muitos amigos. Aquela geração foi dizimada. A AIDS me levou à militância, à pesquisa, e me fez entender o quanto a sexualidade é uma questão social, política e educacional”, conta.
Desde então, ele passou a olhar o corpo, o afeto e o desejo como dimensões legítimas da experiência humana e levou essa discussão para dentro da universidade, onde formando gerações de educadores comprometidos com a diversidade.
Preconceitos e resistência
Ao longo de sua trajetória, Seffner enfrentou inúmeros episódios de preconceito, tanto na vida pessoal quanto no ambiente acadêmico. “Durante muito tempo, falar sobre gênero e sexualidade era visto como militância, não como ciência. Isso também é uma forma de preconceito”, afirma.
Ele lembra que, no início da carreira, a simples menção à homossexualidade em sala de aula podia gerar reações hostis. Ainda assim, se manteve firme. “Era preciso ocupar espaços e falar sobre isso, mesmo quando não havia escuta”, diz.
Apesar dos avanços institucionais, como o reconhecimento do casamento igualitário e a criminalização da homofobia, Seffner vê um novo tipo de intolerância emergir. “Hoje há um discurso de pânico moral, principalmente em torno das questões de gênero e das escolas. Parece que voltamos a um estado de medo”, analisa.
Etarismo e novas redes de cuidado
Aos 69 anos, o professor reflete sobre o envelhecimento dentro da comunidade LGBTQ+, um tema ainda pouco debatido no Brasil. “Estamos envelhecendo, mas sem políticas públicas pensadas para nós. Muitos de nós não temos filhos nem família tradicional, então criamos redes próprias de apoio e amizade”, conta.
Ele observa com ternura os grupos de amigos que se organizam para cuidar uns dos outros. “Há uma solidariedade muito bonita. São redes de cuidado afetivo que substituem, em parte, o papel da família biológica”, comenta. Para ele, essas formas de convivência também são formas de resistência. O etarismo, porém, ainda é um obstáculo. “Vivemos em uma sociedade que exalta a juventude — e, dentro da própria comunidade LGBTQ+, há preconceito contra o envelhecer. É uma exclusão dentro da exclusão”, critica.
Um legado de coragem e escuta
Entre o passado e o futuro, Fernando Seffner segue firme, lecionando, pesquisando, e inspirando novas gerações a compreender que a diversidade é parte essencial da humanidade. Sua história é também um convite à escuta e à empatia. “Durante muito tempo, vivemos com medo. Hoje, quero viver com calma, cercado de amigos e afetos. O envelhecer na comunidade LGBTQ+ é isso: encontrar novos modos de existir e continuar acreditando que o amor, de todas as formas, ainda é o que faz o mundo girar.”



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