O orgulho e a resistência do envelhecer lésbico
- Liliane Moura

- 21 de out. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 3 de nov. de 2025

Aos 58 anos, a advogada Simone Fiorenza dos Santosvive hoje uma fase marcada pela tranquilidade, pela maturidade e pela valorização dos laços de amizade construídos ao longo de sua trajetória. Sua trajetória pessoal e profissional se desenvolveu em um contexto de mudanças profundas na compreensão e vivência da sexualidade no Brasil.
Natural de Porto Alegre, ela começou a frequentar espaços voltados à comunidade LGBTQIAPN+ em 2009, quando passou a integrar redes de sociabilidade entre mulheres lésbicas. Desde então, essas conexões se transformaram em uma espécie de refúgio coletivo contra a solidão e o preconceito. “Criamos um grupo de mulheres que se reúne para conversar, almoçar e rir. Isso nos mantém vivas, com autoestima e vontade de estar juntas”, conta Simone, que está em um relacionamento há seis anos.
Descoberta e aceitação
Ela não se lembra de momento específico de “descoberta” de sua orientação sexual. Para ela, ser lésbica sempre fez parte de sua identidade, embora tenha evitado o termo por muito tempo. “Na minha geração, a palavra ‘lésbica’ era usada como ofensa. Hoje, tenho orgulho de me afirmar assim, mas não foi fácil chegar até aqui”, afirma.
Essa resistência em se nomear reflete uma época marcada pela falta de referências positivas e pela invisibilidade das mulheres homossexuais. O processo de aceitação foi lento e atravessado por experiências de exclusão, inclusive dentro da própria comunidade LGBTQ+.
O peso do etarismo
Com o passar dos anos, Simone passou a notar outro tipo de exclusão: o etarismo, que atinge com força a população LGBTQ+ mais velha. “Em bares, festas e até na praia, sentimos o olhar de julgamento. “A velhice ainda é vista como algo fora do lugar”, observa. Para ela, o envelhecimento na comunidade LGBTQ+ é duplamente invisibilizado: por desafiar os padrões de juventude e também por romper os estereótipos de gênero e sexualidade. “Ser mulher, lésbica e mais velha é estar três vezes fora da curva”, reflete.
Ainda assim, Simone destaca a importância das redes de afeto como ferramenta de resistência. “A gente se reúne, se apoia e compartilha histórias. Isso é o que nos mantém de pé”, comenta.
Avanços e desafios
Apesar dos obstáculos, Simone reconhece que o Brasil avançou em termos de direitos e visibilidade. “Hoje, é possível demonstrar carinho em público sem ser expulsa de um bar, o que antes era comum”, lembra. No entanto, ela acredita que o respeito ainda muitas vezes ainda é resultado da lei, e não de uma mudança real de consciência. “O preconceito não desapareceu, só se sofisticou. As pessoas respeitam mais por medo de punição do que por empatia”, avalia.
Para ela, o futuro depende da capacidade de diálogo entre as gerações e da criação de espaços de convivência que acolham o envelhecimento com dignidade. “O amor e o afeto não têm prazo de validade. A gente só quer continuar existindo e sendo quem é, com liberdade e respeito”, analisa.



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